Empreender é para você?

por Rose Gonçalves - Money Road

Desde os anos 2000, tem aumentado no Brasil, o uso do termo “Empreendedorismo”. Isso se deve ao crescimento econômico no Brasil e a estabilidade econômica, conquistada pelo plano real, que nos encheu de coragem para começar a fazer planos de mais longo prazo.

Eu mesma, formada em Administração de empresas não costumava usar o termo, e, até pouco tempo atrás, não sabia a diferença entre empreender e administrar.

As quatro funções primordiais da administração: planejar, organizar, dirigir e controlar podem e são usadas em qualquer organização, já existente ou nova.

Então qual a diferença entre empreender e administrar?

O termo empreendedorismo remete muito mais à atitude da pessoa, o empreendedor, e ao caráter e ineditismo do negócio, ou seja, algo precisa necessariamente ser novo, para a pessoa e/ou para a empresa.

Vamos à definição segundo a Endeavor:

"Empreendedorismo é a disposição para identificar problemas e oportunidades e investir recursos e competências na criação de um negócio, projeto ou movimento que seja capaz de alavancar mudanças e gerar um impacto positivo."

Já, segunda a Wikipedia:

Empreendedorismo é o processo de iniciativa de implementar novos negócios ou mudanças em empresas já existentes. É um termo muito usado no âmbito empresarial e muitas vezes está relacionado com a criação de empresas ou produtos novos, normalmente envolvendo inovações e riscos.

Pessoas como Bill Gates e Steve Jobs são consideradas empreendedoras por terem inovado no ramo da tecnologia, como no desenvolvimento de sistemas operacionais, no caso de Bill Gates.

O empreendedorismo está muito relacionado com a questão de inovação, onde têm determinado objetivo de criar algo novo dentro de um setor ou criar um novo, diversas startups por exemplo, inovam dentro de um setor existente. Uma grande startup hoje que teve inovações dentro de um setor existente, é a Uber, que deu novas possibilidades no mercado dos táxis”.

Percebam que empreender, está fatalmente e inseparavelmente, ligado à “correr riscos”.

É aí que precisamos fazer uma reflexão muito consequente a respeito de nós mesmos, até que ponto estamos dispostos a correr riscos?

Entendo que a maioria de nós tem como valor fundamental a segurança, essa traz tranquilidade.

Não há nada de errado em escolher correr os menores riscos possíveis!

Quanto mais importante é esse valor para a pessoa, menos “perfil empreendedor” (se é que isso realmente existe) ela terá.

A “Gourmetização” do empreendedorismo

Ao correr minha página do Facebook ou mesmo os noticiários, pelo menos uma vez por semana, me deparo com manchetes como essas:

Ex-estudante de medicina ganha R$ 1,5 milhão vendendo doces

Estudante larga faculdade de medicina e fatura R$ 1,5 milhão com doces

Ex-cortadora de cana dá 5 dicas de como faturar o 1o milhão

Ele dormiu no carro por 3 anos – hoje fatura R$ 40 milhões

A primeira coisa que me incomoda profundamente nessas chamadas são os verbos: “Faturar e Ganhar”.

Especialmente no Brasil onde a maioria esmagadora da população não sabe a diferença conceitual entre as palavras.

Faturar Ganhar Lucrar

Vamos exemplificar através da primeira manchete e ver a mensagem que ela passa.

1a. Manchete: “Ex-estudante de medicina ganha R$ 1,5 milhão vendendo doces”

Mensagens subentendidas:

- Vender doces pode ser mais vantajoso do que ser médico.

- A moça da reportagem tem um salário de R$ 1,5 milhão ao mês.

Ao ler a reportagem, percebemos que ela não vende doces, ela criou uma marca que cria novos sabores, produz, distribui e vende doces. Além disso R$ 1,5 milhão é o faturamento da rede que ela criou, isso inclui franquias, as quais ela deverá dividir os lucros com os franqueados e o faturamento da loja própria.

Só que faturamento significa bem pouco a respeito do sucesso de um empreendimento. É somente a soma de bens e serviços vendidos e entregues.

Daí devemos deduzir todos os custos e despesas como impostos, salários, inclusive dos sócios ou donos, matérias primas, marketing, fretes, juros, aluguéis e tudo mais.

O que sobra é o lucro, e é esse o retorno da empresa.

Isso, ninguém te conta!

Você pode comprar um carro que vale um milhão de reais, vender por 500 mil e sair anunciando que faturou os 500 mil! Será uma verdade que esconde um prejuízo de 500 mil.

É preciso sempre verificar a fonte da notícia, é claro que uma publicação que tem por objetivo fomentar o empreendedorismo vai sempre ver o copo meio cheio.

Somos nós que devemos olhar para os riscos e entender as informações que faltam na matéria.

O que me preocupa é que tenho a impressão que as pessoas, buscando aquela dose extra de coragem e inspiração, não parem para olhar esses “detalhes”.

A variedade de perfis e formações das pessoas retratadas também nos passam aquela sensação que “qualquer um pode empreender”. Como se para isso bastasse esforço e criatividade. Desprezando o conhecimento técnico que o empreendedor deverá adquirir, por bem ou por mal.

Empreendedorismo como produto

Aqui há um forte julgamento da pessoa: “quem não empreende é medíocre”, e “riscos tornam a vida emocionante”.

Esse juízo de valor torna os não empreendedores, pessoas de menor valor moral, talvez acomodadas ou preguiçosas. No geral é dito por alguém que garante que tem uma fórmula para te levar a empreender e ganhar muito dinheiro em pouco tempo, e, claro, para isso você deve investir, ou seja pagar a ele.

Certa vez escutei de um especialista em finanças pessoais que uma pessoa enviou um email com a seguinte pergunta:

- Como faço para ficar rico?

Ele pensou:

- Mesmo que eu soubesse a resposta (o que eu não sei), porque eu te contaria?

A internet está cheia de pessoas que garantem que podem te ensinar a se tornar um empreendedor de sucesso. Por conta desse mercado, criou-se até o termo “empreendeodorismo de palco”. Esse gera realmente muito dinheiro para os palestrantes, não necessariamente para quem paga.

Será que é pra mim?

A revista Pequenas Empresas Grandes Negócios listou 10 motivos pelos quais, segundo ela, TODOS podem empreender

Tomei a liberdade de trazer cada um dos 10 pontos levantados e trazer novas reflexões a respeito de cada um deles:

1- Empreender não é um dom, ninguém nasce empreendedor ou empreendedora

Se alguém é capaz de fazer algo, todos podem aprender a fazer também, a pergunta aqui é, a que custo pessoal?

Talvez você conheça alguém que tenha exatamente esse perfil: Generalista, bom negociador, sempre empolgado, automotivado, não se deixa abater, gosta de arriscar, bom comunicador, criativo, paciente.

Há pessoas que simplesmente nascem assim, outras não.

É claro que é possível aprender qualquer coisa, agora reflita sinceramente e responda, o que te falta? Está disposto a se tornar alguém diferente? Será que tem essa flexibilidade?

2- Será que você quer??

Você não precisa de muito dinheiro para começar um negócio (e às vezes não precisa de nenhum)

Quanto mais conhecimentos e habilidades tiver, menos dinheiro precisará.

Preste atenção nos recursos que precisará para viver enquanto o negócio não decola, além disso, quanto tempo pode suportar um negócio que está indo mais ou menos.

Sugiro ter um bom planejamento financeiro pessoal para calcular os riscos econômicos da empreitada.

3- Você não precisa ter ensino formal para ser empreendedor

Formalmente não, mas acredite, aprender “na prática” é um tremendo desperdício de tempo e dinheiro!

Ou seja, é necessário ao empreendedor o gosto por aprender, ler, estudar. Muito!

4- Tamanho não é sinônimo de sucesso

É você quem dá a medida do seu sucesso! Quanto espera de retorno financeiro, crescimento intelectual, networking?

Quantas horas por dia está disposto a trabalhar para alcançar esse sucesso?

Você pode, simplesmente, não estar disposto a trabalhar 14 horas por dia, sem férias, durante os próximos 4 ou 5 anos, e não há absolutamente nada de errado nisso.

5- Ter falido um negócio não transforma ninguém num mal empreendedor ou empreendedora, errar faz parte do processo

Quando recebe uma resposta negativa (num processo de seleção por um emprego, por exemplo) como reage? Sofre? Se sente um pouco abatido por alguns dias?

O empreendedor leva algumas negativas POR DIA. É um nível de resiliência muito alto. Será que você quer lidar com isso?

Você tem fôlego financeiro, intelectual e emocional para falir um negócio e recomeçar na mesma empolgação do anterior?

6- Empreendedorismo não está necessariamente ligado à obtenção de lucro

Parece lindo, mas a imensa maioria da população que empreende está buscando o seu sustento e de sua família, numa atividade que seja compatível com seus padrões éticos e habilidades.

7- Fazer um empréstimo para o negócio e contrair uma dívida não é sempre ruim

No país com as taxas de juros mais altas do mundo, não é sempre ruim, é péssimo para a maioria dos negócios, ruim para alguns e bom para algumas exceções.

Como saber se seu caso é exceção? Fazendo contas. Seu retorno previsto desse dinheiro deve superar os juros.

8- Você não precisa encontrar uma oportunidade para empreender, você pode criar uma

Se fala em criar uma oportunidade como se todo mundo acordasse pela manhã com uma ideia brilhante.

9- Empreender é sobre lidar com incertezas e não sobre ter certezas

Todas as incertezas e riscos são seus. Está preparado??

10- Você pode abrir um negócio relacionado àquilo que você ama

Mais do que isso... será que o mundo paga por aquilo que você ama fazer?

Pode amar cantar, mas ser um cantor mediano, amar cozinhar, mas seus pratos não têm nada demais.

Escolha um talento que o mundo esteja disposto a te pagar!

Empreender é, antes de mais nada, escolher correr riscos. E como uma escolha, você pode perfeitamente escolher o não e não há nada de errado nisso.

Você pode ser um super especialista, tão necessário em grandes empresas, pode odiar vender, ter horror a falar em público, não ser criativo, se abater com negativas.

Nenhuma dessas características te torna um profissional pior, só te afasta do caminho do empreendedorismo.

Mas quem disse que o caminho deve ser igual para todos??

Faça seu próprio caminho e não compre o modelo de sucesso de ninguém!

Rose - Money RoadPor Rose Gonçalves

Planejadora financeira CFP, certificada pela Planejar no Brasil. Empreendedora, cheia de dicas financeiras que valem para a vida. Conheça mais na Money Road.

 

 

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